Eu continua a ler todos os livros com um desejo insaciável de saber os segredos do mundo inteiro e com a necessidade de que nunca me falte o que escrever. Porque sou esse conjunto de frases mal elaboradas e incompletas que precisa riscar o papel vez ou outra para deixar escapar todas as sensações que tenho: das coisas, das pessoas e de mim.
Acontece que não posso me assumir escritora. Não posso porque me falta a coragem de gritar toda a podridão da humanidade. E ainda tenho pudor, veja só, pudor de escrever. E os bons escritores não são assim. Eles contam suas histórias sem se importarem de como serão lidos, escrevem porque é tudo o que lhes restam a fazer.
Ainda quero bater no peito e dizer: "eu assumo, eu assumo que há defeitos demais no mundo e tudo padece sem esperança, mas eu escrevo. Escrevo sobre os pecados humanos e cometo todos eles"
Enquanto isso não acontece, escrevo ao pé da igreja, sob segredo e me arrependendo no instante em que finalizo minhas histórias. Arrependo-me ao pé da cruz e com submissão ao Deus que se diverte com meu medo de ser quem sou.
Preciso escrever. Escrever e condenar todos, antes que soe a última badalada do sino e Deus faça isso por mim.
Aqui estou, outra vez, crua. Sob um céu esquálido e sufocante. A coragem escapa de mim feito um disparo e o caos ordena o universo.
Os olhos insones de um poeta, as profecias de um blues, o suspiro de quem desfrutou do desejo e a mágoa de quem descobriu toda a infâmia que há no amor. A glória do arrependimento e a angústia implacável que é viver.
Escrevo todos esses absurdos me despindo e, dentro da despedida de cada amante, no âmago de toda a sordidez que o mundo esconde e dentro de tudo que há de mais impoético, meu coração insiste cansado e respira pela última vez.
Aqui estou, outra vez, nua.
Aqui estou, outra vez, nua.
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