Mãe, eu não sei como pedir desculpas. Eu sei que não sou a filha católica, celibatária e que se apega aos detalhes do arranjo ou se importa com armários de cozinha. Sinto muito porque sei que investiu tempo e dedicação em mim e sei que em nada correspondo às expectativas. Mãe, eu sei que sou seus pesadelos se tornando realidade enquanto me distancio cada vez mais da cruz, cada vez mais do perdão. Mas, entenda, mãe, na igreja eles não se preocupam com o perdão, eles só querem instaurar o medo, querem que tomamos ciência de que quando caminhamos para longe do altar nos aproximamos do inferno. E eu estou a um passo da condenação eterna. Mas não vou pedir desculpas por querer ser alguém diferente desses teus planos de 20 anos atrás.
Por ser quem sou e por estar aonde estou, exatamente agora, assim; nua, despida das roupas e de todos os pré-conceitos que foram me vestindo por anos, por estar em busca de ser a mulher que sempre quis ser, é que eu sei que não posso continuar assim. Faltaria coerência e deus sabe que não perdoo falta de coerência. Aliás, você sabe quantas coisas não perdoo. Quantas coisas meu orgulho megalomaníaco nunca me permitiu perdoar ou saber ignorar. E é por esse orgulho, por essa busca infinda que não posso continuar assim, que não posso ser essa desistente covarde e mesquinha. E por isso sim peço desculpas. Por estar falhando em ser quem eu quero ser, não por menos que isso.
Em busca de ser a mulher que sempre quis ser já fui ana, já fui maria, já fui louca e já fui santa. E só assim que eu descobri que é preciso ser tantas outras antes de me tornar eu mesma. Antes que eu possa concretizar a profecia que meu nome carrega. Pequena, pequena, pequena. Seria sina ou dádiva? Quão pequena tenho que ser? Quantos metros de prepotência tenho que cortar? Também não tenho as repostas, não tenho os mapas, os trajetos, não tenho nada a não ser a dúvida e as decisões que preciso tomar a cada bifurcação. Hoje quando acordei eu era escritora, antes do meio dia eu era advogada e quando fui dormir eu era outra vez criança, sem profissão e sem escolhas a fazer. Mãe, meus vinte anos gritam alto pouco antes de adormecer. Eu completei duas décadas e não sou um ser humano completo ainda. Eu não sou quem eu preciso ser, mãe! Entenda meu desespero! Por isso eu precisei ir, por isso ir morar em outra cidade, por isso agora eu bebo, mãe. Mas eu me perdi, eu me perdi e esqueci qual era a minha procura, eu esqueci o porquê estava caminhando. Por isso voltei, mãe, pra refazer meus passos e para quando eu olhasse em seus olhos eu soubesse por onde recomeçar.
Ainda sou só, mãe, e não tenho planos de casamento. Ainda passo por camas que não são minhas em busca de desejo e quem sabe um pouco de cuidado. Continuo sendo propensa à me entregar de uma vez ou de nunca me abrir, ainda sou assim. Esquiva, intensa, covarde. Também não sei o quanto isso me afeta ou o quanto me desconstrói, mas eu tenho sido sincera as minhas vontades. Ainda choro vez ou outra sem razão. E rio sozinha quando acordo, simplesmente por rir.
Mãe, todos os meus medos vão tomando forma. Todas minhas inseguranças têm sido maiores que eu. E quanto mais anos se somam a minha idade, menos sábia eu me sinto. Acredito que fui mais madura aos 16 do que no auge dos 20. É possível que a criança que fui sabia mais do que a adulta que pretendo ser? É possível, mãe, que eu esteja desaprendendo tudo enquanto cresço?
Mãe, preciso me encontrar. E se não conseguir, volto quantas vezes forem necessárias aos seus braços. Preciso me encontrar; porque depois dos 20 é um precipício e eu continuo caindo sem saber como me salvar.
Aqui estou, outra vez, crua. Sob um céu esquálido e sufocante. A coragem escapa de mim feito um disparo e o caos ordena o universo.
Os olhos insones de um poeta, as profecias de um blues, o suspiro de quem desfrutou do desejo e a mágoa de quem descobriu toda a infâmia que há no amor. A glória do arrependimento e a angústia implacável que é viver.
Escrevo todos esses absurdos me despindo e, dentro da despedida de cada amante, no âmago de toda a sordidez que o mundo esconde e dentro de tudo que há de mais impoético, meu coração insiste cansado e respira pela última vez.
Aqui estou, outra vez, nua.
Aqui estou, outra vez, nua.
wow
ResponderExcluirCadê você, Paula? Nunca mais pude ler um texto seu. Me sinto órfã deles,
ResponderExcluir