Aqui estou, outra vez, crua. Sob um céu esquálido e sufocante. A coragem escapa de mim feito um disparo e o caos ordena o universo.
Os olhos insones de um poeta, as profecias de um blues, o suspiro de quem desfrutou do desejo e a mágoa de quem descobriu toda a infâmia que há no amor. A glória do arrependimento e a angústia implacável que é viver.
Escrevo todos esses absurdos me despindo e, dentro da despedida de cada amante, no âmago de toda a sordidez que o mundo esconde e dentro de tudo que há de mais impoético, meu coração insiste cansado e respira pela última vez.

Aqui estou, outra vez, nua.

domingo, 17 de novembro de 2013

Fomos muitas coisas durante tanto tempo e agora não somos mais nada. Vinte e quatro estações tiveram que passar para que eu pudesse entender que a primavera remedia os estragos do inverno de uma maneira incansável e determinada. Mas sem o inverno jamais haveria o renascer das flores. 

Entre tantas idas e voltas, corremos em círculos fugindo das dores que sempre estiveram em nossos corpos e temíamos a cura de nossas mágoas. Estivemos sempre condicionados às possibilidades que nunca viraram verdades, sempre impedidos pelos medos que cultivávamos para nos proteger do risco que era viver. Somos instáveis como a chuva que teme cair e ainda assim buscávamos a certeza que o tempo tem. E nunca vislumbramos que o que queríamos não era a realidade que se expunha crua em nossos dias, nos protegemos tanto e com tanto afinco, porque a vitalidade do que sentíamos estava na possibilidade. 

Você diversas vezes exitou amar de amplo coração e eu nunca pude aceitar que o amor existia. Acabamos como dois covardes, em comum acordo, porque não soubemos aceitar o que sentíamos. Não soubemos lidar com o que estava acima de nós. 

E ao final você me pergunta porque insistimos em amar quando sabemos que vamos nos ferir. E eu te respondo que é pela mesma razão que as flores renascem: 
Porque é preciso. Porque é bonito. 

Fomos o eterno vir-a-ser. 

2 comentários:

  1. Nunca me canso de comentar teus textos, Paula. Esse, inclusive, define os sentimentos da minha atual situação.
    Não pare de escrever. Você faz bem o que faz.
    Um beijo e grande abraço,
    Paola.

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    1. Paola, se tu se identifica com esse texto não sei se isso é bom ou ruim, muito difícil tomar ciência desses sentimentos, numa situação dessa. Obrigada pela atenção, identificação e carinho de sempre.

      Um beijo, Paula

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