Onde jazz meu coração
Aqui estou, outra vez, nua.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Acontece que não posso me assumir escritora. Não posso porque me falta a coragem de gritar toda a podridão da humanidade. E ainda tenho pudor, veja só, pudor de escrever. E os bons escritores não são assim. Eles contam suas histórias sem se importarem de como serão lidos, escrevem porque é tudo o que lhes restam a fazer.
Ainda quero bater no peito e dizer: "eu assumo, eu assumo que há defeitos demais no mundo e tudo padece sem esperança, mas eu escrevo. Escrevo sobre os pecados humanos e cometo todos eles"
Enquanto isso não acontece, escrevo ao pé da igreja, sob segredo e me arrependendo no instante em que finalizo minhas histórias. Arrependo-me ao pé da cruz e com submissão ao Deus que se diverte com meu medo de ser quem sou.
Preciso escrever. Escrever e condenar todos, antes que soe a última badalada do sino e Deus faça isso por mim.
domingo, 31 de agosto de 2014
Por ser quem sou e por estar aonde estou, exatamente agora, assim; nua, despida das roupas e de todos os pré-conceitos que foram me vestindo por anos, por estar em busca de ser a mulher que sempre quis ser, é que eu sei que não posso continuar assim. Faltaria coerência e deus sabe que não perdoo falta de coerência. Aliás, você sabe quantas coisas não perdoo. Quantas coisas meu orgulho megalomaníaco nunca me permitiu perdoar ou saber ignorar. E é por esse orgulho, por essa busca infinda que não posso continuar assim, que não posso ser essa desistente covarde e mesquinha. E por isso sim peço desculpas. Por estar falhando em ser quem eu quero ser, não por menos que isso.
Em busca de ser a mulher que sempre quis ser já fui ana, já fui maria, já fui louca e já fui santa. E só assim que eu descobri que é preciso ser tantas outras antes de me tornar eu mesma. Antes que eu possa concretizar a profecia que meu nome carrega. Pequena, pequena, pequena. Seria sina ou dádiva? Quão pequena tenho que ser? Quantos metros de prepotência tenho que cortar? Também não tenho as repostas, não tenho os mapas, os trajetos, não tenho nada a não ser a dúvida e as decisões que preciso tomar a cada bifurcação. Hoje quando acordei eu era escritora, antes do meio dia eu era advogada e quando fui dormir eu era outra vez criança, sem profissão e sem escolhas a fazer. Mãe, meus vinte anos gritam alto pouco antes de adormecer. Eu completei duas décadas e não sou um ser humano completo ainda. Eu não sou quem eu preciso ser, mãe! Entenda meu desespero! Por isso eu precisei ir, por isso ir morar em outra cidade, por isso agora eu bebo, mãe. Mas eu me perdi, eu me perdi e esqueci qual era a minha procura, eu esqueci o porquê estava caminhando. Por isso voltei, mãe, pra refazer meus passos e para quando eu olhasse em seus olhos eu soubesse por onde recomeçar.
Ainda sou só, mãe, e não tenho planos de casamento. Ainda passo por camas que não são minhas em busca de desejo e quem sabe um pouco de cuidado. Continuo sendo propensa à me entregar de uma vez ou de nunca me abrir, ainda sou assim. Esquiva, intensa, covarde. Também não sei o quanto isso me afeta ou o quanto me desconstrói, mas eu tenho sido sincera as minhas vontades. Ainda choro vez ou outra sem razão. E rio sozinha quando acordo, simplesmente por rir.
Mãe, todos os meus medos vão tomando forma. Todas minhas inseguranças têm sido maiores que eu. E quanto mais anos se somam a minha idade, menos sábia eu me sinto. Acredito que fui mais madura aos 16 do que no auge dos 20. É possível que a criança que fui sabia mais do que a adulta que pretendo ser? É possível, mãe, que eu esteja desaprendendo tudo enquanto cresço?
Mãe, preciso me encontrar. E se não conseguir, volto quantas vezes forem necessárias aos seus braços. Preciso me encontrar; porque depois dos 20 é um precipício e eu continuo caindo sem saber como me salvar.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Pra não dizer que não estava escrito
Sei da minha pressa e do meu descontrole. Falo apressada, falo alto, repetidamente. Falo desesperadamente. E rio. Rio alto e rio muito. Sei também que te devoro em mente, olhar e desejo. Te devoro e te desconcerto. Sei da minha intensidade e do quanto isso assusta. Sei da minha cena. Mas,olhe bem, é crucial que você entenda que essa parte é pequena diante tudo. E é por todas essas coisas que preciso de você. Porque tens olhos grandes e sabe olhar com cautela. Porque não tem pressa, porque tens mais calma e certeza do que eu jamais terei na vida. E por tudo isso, por todo o seu silêncio e toda a sua tranquilidade que te quero. Porque você me traz equilíbrio. Porque nosso silêncio tem significado. Porque nossos corpos tem sincronia. Porque acredito que você é o fim de uma longa procura.
Quando deitados, com as roupas no chão e as respirações ofegantes, somos verdadeiros como raramente podemos. Porque faz sentido estarmos ali. E nenhuma bebida traz essa sensação.
Eu e você podemos negar e fugir, mas há de ter um caminho que nos traga de volta. Somos extremos opostos cheios de pontos de encontro. Vamos acabar tantas outras vezes à revelia de tudo, ignorando a noite e o resto do mundo, cansados e conversando aleatoriamente. Vou acabar em você outras e outras vezes.
Vamos acabar fazendo par.