Aqui estou, outra vez, crua. Sob um céu esquálido e sufocante. A coragem escapa de mim feito um disparo e o caos ordena o universo.
Os olhos insones de um poeta, as profecias de um blues, o suspiro de quem desfrutou do desejo e a mágoa de quem descobriu toda a infâmia que há no amor. A glória do arrependimento e a angústia implacável que é viver.
Escrevo todos esses absurdos me despindo e, dentro da despedida de cada amante, no âmago de toda a sordidez que o mundo esconde e dentro de tudo que há de mais impoético, meu coração insiste cansado e respira pela última vez.

Aqui estou, outra vez, nua.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Eu continua a ler todos os livros com um desejo insaciável de saber os segredos do mundo inteiro e com a necessidade de que nunca me falte o que escrever. Porque sou esse conjunto de frases mal elaboradas e incompletas que precisa riscar o papel vez ou outra para deixar escapar todas as sensações que tenho: das coisas, das pessoas e de mim.

Acontece que não posso me assumir escritora. Não posso porque me falta a coragem de gritar toda a podridão da humanidade. E ainda tenho pudor, veja só, pudor de escrever. E os bons escritores não são assim. Eles contam suas histórias sem se importarem de como serão lidos, escrevem porque é tudo o que lhes restam a fazer.

Ainda quero bater no peito e dizer: "eu assumo, eu assumo que há defeitos demais no mundo e tudo padece sem esperança, mas eu escrevo. Escrevo sobre os pecados humanos e cometo todos eles"

Enquanto isso não acontece, escrevo ao pé da igreja, sob segredo e me arrependendo no instante em que finalizo minhas histórias. Arrependo-me ao pé da cruz e com submissão ao Deus que se diverte com meu medo de ser quem sou.

Preciso escrever. Escrever e condenar todos, antes que soe a última badalada do sino e Deus faça isso por mim.

domingo, 31 de agosto de 2014

Mãe, eu não sei como pedir desculpas. Eu sei que não sou a filha católica, celibatária e que se apega  aos detalhes do arranjo ou se importa com  armários de cozinha. Sinto muito porque sei que investiu tempo e dedicação em mim e sei que em nada correspondo às expectativas. Mãe, eu sei que sou seus pesadelos se tornando realidade enquanto me distancio cada vez mais da cruz, cada vez mais do perdão. Mas, entenda, mãe, na igreja eles não se preocupam com o perdão, eles só querem instaurar o medo, querem que tomamos ciência de que quando caminhamos para longe do altar nos aproximamos do inferno. E eu estou a um passo da condenação eterna. Mas não vou pedir desculpas por querer ser alguém diferente desses teus planos de 20 anos atrás.

Por ser quem sou e por estar aonde estou, exatamente agora, assim; nua, despida das roupas e de todos os pré-conceitos que foram me vestindo por anos, por estar em busca de ser a mulher que sempre quis ser, é que eu sei que não posso continuar assim. Faltaria coerência e deus sabe que não perdoo falta de coerência. Aliás, você sabe quantas coisas não perdoo. Quantas coisas meu orgulho megalomaníaco nunca me permitiu perdoar ou saber ignorar. E é por esse orgulho, por essa busca infinda que não posso continuar assim, que não posso ser essa desistente covarde e mesquinha. E por isso sim peço desculpas. Por estar falhando em ser quem eu quero ser, não por menos que isso.

Em busca de ser a mulher que sempre quis ser já fui ana, já fui maria, já fui louca e já fui santa. E só assim que eu descobri que é preciso ser tantas outras antes de me tornar eu mesma. Antes que eu possa concretizar a profecia que meu nome carrega. Pequena, pequena, pequena. Seria sina ou dádiva? Quão pequena tenho que ser? Quantos metros de prepotência tenho que cortar? Também não tenho as repostas, não tenho os mapas, os trajetos, não tenho nada a não ser a dúvida e as decisões que preciso tomar a cada bifurcação. Hoje quando acordei eu era escritora, antes do meio dia eu era advogada e quando fui dormir eu era outra vez criança, sem profissão e sem escolhas a fazer. Mãe, meus vinte anos gritam alto pouco antes de adormecer. Eu completei duas décadas e não sou um ser humano completo ainda. Eu não sou quem eu preciso ser, mãe! Entenda meu desespero! Por isso eu precisei ir, por isso ir morar em outra cidade, por isso agora eu bebo, mãe. Mas eu me perdi, eu me perdi e esqueci qual era a minha procura, eu esqueci o porquê estava caminhando. Por isso voltei, mãe, pra refazer meus passos e para quando eu olhasse em seus olhos eu soubesse por onde recomeçar.

Ainda sou só, mãe, e não tenho planos de casamento. Ainda passo por camas que não são minhas em busca de desejo e quem sabe um pouco de cuidado. Continuo sendo propensa à me entregar de uma vez ou de nunca me abrir, ainda sou assim. Esquiva, intensa, covarde. Também não sei o quanto isso me afeta ou o quanto me desconstrói, mas eu tenho sido sincera as minhas vontades. Ainda choro vez ou outra sem razão. E rio sozinha quando acordo, simplesmente por rir.

Mãe, todos os meus medos vão tomando forma. Todas minhas inseguranças têm sido maiores que eu. E quanto mais anos se somam a minha idade, menos sábia eu me sinto. Acredito que fui mais madura aos 16 do que no auge dos 20. É possível que a criança que fui sabia mais do que a adulta que pretendo ser? É possível, mãe, que eu esteja desaprendendo tudo enquanto cresço?

Mãe, preciso me encontrar. E se não conseguir, volto quantas vezes forem necessárias aos seus braços. Preciso me encontrar; porque depois dos 20 é um precipício e eu continuo caindo sem saber como me salvar.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pra não dizer que não estava escrito

Sei da minha pressa e do meu descontrole. Falo apressada, falo alto, repetidamente. Falo desesperadamente. E rio. Rio alto e rio muito. Sei também que te devoro em mente, olhar e desejo. Te devoro e te desconcerto. Sei da minha intensidade e do quanto isso assusta. Sei da minha cena. Mas,olhe bem, é crucial que você entenda que essa parte é pequena diante tudo. E é por todas essas coisas que preciso de você. Porque tens olhos grandes e sabe olhar com cautela. Porque não tem pressa, porque tens mais calma e certeza do que eu jamais terei na vida. E por tudo isso, por todo o seu silêncio e toda a sua tranquilidade que te quero. Porque você me traz equilíbrio. Porque nosso silêncio tem significado. Porque nossos corpos tem sincronia. Porque acredito que você é o fim de uma longa procura.

Quando deitados, com as roupas no chão e as respirações ofegantes, somos verdadeiros como raramente podemos. Porque faz sentido estarmos ali. E nenhuma bebida traz essa sensação.

Eu e você podemos negar e fugir, mas há de ter um caminho que nos traga de volta. Somos extremos opostos cheios de pontos de encontro. Vamos acabar tantas outras vezes à revelia de tudo, ignorando a noite e o resto do mundo, cansados e conversando aleatoriamente. Vou acabar em você outras e outras vezes.

Vamos acabar fazendo par.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Nota:

O corpo humano não é simétrico de si mesmo. A simetria só é encontrada em outro corpo, na linha de outro peito e no encaixe de outras mãos. Somos ímpares e só deixamos essa condição quando encontramos outra pessoa.

É questão de matemática: 1+0 nunca acrescentou ninguém.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Observações aleatórias

Abaixo do céu, toda a confusão, todo o desespero faz cada vez menos sentido. Chove com severidade e nenhuma água é suficiente para aplacar a sede, nem todas as gotas de uma tempestade pesam tanto quanto uma lágrima. A vida, eu vejo, é feita de desencontros e contradições. E em meio a tudo isso, estamos sós em busca de uma direção. Somos todos perdidos e desorientados, cada qual na sua proporção. 

Acima do céu, todas as estrelas, todas as constelações são vestígios de um mapa. O universo esconde um segredo incapaz de ser revelado pelos cientistas, mas presumo que seja tão óbvio quanto as transições da lua e do sol. Há uma desordem natural que rege os astros que seguem soltos através do tempo e do espaço chocando-se vez ou outra em outros corpos. Em simetria com a vida aqui em baixo. 

Percebo, então, que no espaço, na vida e no amor, a única lei regente é o caos. 

domingo, 17 de novembro de 2013

Fomos muitas coisas durante tanto tempo e agora não somos mais nada. Vinte e quatro estações tiveram que passar para que eu pudesse entender que a primavera remedia os estragos do inverno de uma maneira incansável e determinada. Mas sem o inverno jamais haveria o renascer das flores. 

Entre tantas idas e voltas, corremos em círculos fugindo das dores que sempre estiveram em nossos corpos e temíamos a cura de nossas mágoas. Estivemos sempre condicionados às possibilidades que nunca viraram verdades, sempre impedidos pelos medos que cultivávamos para nos proteger do risco que era viver. Somos instáveis como a chuva que teme cair e ainda assim buscávamos a certeza que o tempo tem. E nunca vislumbramos que o que queríamos não era a realidade que se expunha crua em nossos dias, nos protegemos tanto e com tanto afinco, porque a vitalidade do que sentíamos estava na possibilidade. 

Você diversas vezes exitou amar de amplo coração e eu nunca pude aceitar que o amor existia. Acabamos como dois covardes, em comum acordo, porque não soubemos aceitar o que sentíamos. Não soubemos lidar com o que estava acima de nós. 

E ao final você me pergunta porque insistimos em amar quando sabemos que vamos nos ferir. E eu te respondo que é pela mesma razão que as flores renascem: 
Porque é preciso. Porque é bonito. 

Fomos o eterno vir-a-ser. 

sábado, 31 de agosto de 2013

On the road

Eu pelo mundo, na auto-estrada, acima das nuvens. Londres, Dublin, Paris, Buenos Aires, Atenas. As luzes, as praças, a mesma conversa de porta-de-rua em idiomas distintos. Eu traçando minhas rotas e construindo meus trajetos. O sol que se põe diversas vezes em diferentes céus do mundo. E as estrelas que me guiam por onde quer que eu vá.

Andando por passos que são meus, percorrendo minhas rotas de fuga, dando sentido ao meu coração sempre distante. Pertencendo a cada lugar. Conhecendo várias vezes o mesmo céu pelas diversas janelas de hotéis. Tudo que sempre quis.

Eu mais madura e ainda petulante. A mesma vontade de ser plenamente livre e um coração que nunca aprendeu a bater certo. No peito, uma coragem duvidosa e uma certeza de que estou indo porque preciso. 

Há a saudade. Nada além de você.